Resenha | A Pérola que Rompeu a Concha - Nadia Hashimi



“Shahla suspirou. Ela sentia saudades daqueles tempos tanto quanto eu. 
Eu sei, Rahima-jan. Mas, os tempos mudam. Tudo muda. Um por um, os pássaros voam para longe.”
Sinopse: Filhas de um viciado em ópio, Rahima e suas irmãs raramente saem de casa ou vão à escola em meio ao governo opressor do Talibã. Sua única esperança é o antigo costume afegão do bacha posh, que permite à jovem Rahima vestir-se e ser tratada como um garoto até chegar à puberdade, ao período de se casar.
Como menino, ela poderá frequentar a escola, ir ao mercado, correr pelas ruas e até sustentar a casa, experimentando um tipo de liberdade antes inimaginável e que vai transformá-la para sempre.
Contudo, Rahima não é a primeira mulher da família a adotar esse costume tão singular. Um século antes, sua trisavó Shekiba, que ficou órfã devido a uma epidemia de cólera, salvou-se e construiu uma nova vida de maneira semelhante. A mudança deu início a uma jornada que a levou de uma existência de privações em uma vila rural à opulência do palácio do rei, na efervescente metrópole de Cabul.
A pérola que rompeu a concha entrelaça as histórias dessas duas mulheres extraordinárias que, apesar de separadas pelo tempo e pela distância, compartilham a coragem e vão em busca dos mesmos sonhos. Uma comovente narrativa sobre impotência, destino e a busca pela liberdade de controlar os próprios caminhos.


Meninas afegãs 

Quando eu comecei essa leitura nunca imaginaria por trás da história teria mulheres fortes, mas ao mesmo tempo isoladas ao seu próprio “nasib” isso significa destino. Neste livro eu viajei para o Afeganistão em duas épocas, a primeira por volta de 1919, e a outra mais atual. Conta a história Shekiba e Rahima, mulheres que vivem em um tempo diferente, todavia suas histórias são como laços que as unem a partir de um antigo costume afegão, se chama “bacha posh” meninas que se vestem de meninos para poder estudar, trabalhar e viver livremente. A cultura afegã é muito rígida para as mulheres, e bem centrada na religião do islamismo, muitas não vão à escola, e não tem os mesmo direitos que homens. A história é ficcional com personagens que não existiram , contudo é baseada na verdadeira cultura afegã. Vou ser bem sincera com vocês, não é uma história humorada, com final feliz e muito amor. O que realmente eu pude enxergar de algo bom, foi a maternidade da mulher, independentemente se tem filhos ou não. Isso eu vejo muito da tia da Rahima, porque ela quer o bem das sobrinhas, para que tenham estudos e que sejam felizes, ela luta até o fim para que as sobrinhas estejam bem, só que o destino muda tudo isso.

Ao longo dos capítulos são intercalados contando a história de Rahima e Shekiba, a mesma é trisavó dela. Como Rahima torna-se uma bocha posh ela é vista com bom sucesso pelo pai. Se eu não me engano, são sete meninas ao todo que moram na casa. As irmãs da Rahima. Não tem um filho, e geralmente é isso que acontece, além da própria família ficar mal falada por não ter um filho, como já mencionei antes os direitos são diferentes entre homens e mulheres. Quem conta a história da Shekiba é a tia da Rahima, uma mulher muito forte para uma cultura que a mulher não tem um significado para a sociedade afegã, e ela não é bem vista pelos outros, justamente porque ela vai contra o que impõe para ela, e para as suas sobrinhas. Eu disse que não tinha humor na história, mas a tia da Rahima é a grande quebra da tensão que cobre a vida de cada uma delas, o humor e a história torna-se uma passagem para um mundo totalmente diferente do que elas vivem. 


Cidade de Cabul

Rahima casa-se bem cedo, é algo visto como normal para a cultura afegã, as quatros irmãs também se casam, mas elas não querem, o casamento arranjado, é muito difícil uma mulher escolher o marido, não sei se existe essa possibilidade. 

Shekiba é diferente, ela perde toda a família, após um surto de cólera na região, e fica sozinha por um tempo. Depois ela é expulsa da casa onde vivia com os pais e os irmãos, mas ela tem um deformação no rosto isso faz com que ela seja tratada diferente. Ela vai parar em algumas casas para trabalhar, depois ela se torna guarda do harém do rei, ela se veste com roupas masculinas. Até que a vida dela fica boa, no entanto acontece algo muito ruim, uma das mulheres do rei comete adultério, e na cultura afegã é um crime. Shekiba também indiciada ao crime, mesmo ela tentando fazer o certo, quase é apedrejada...a mulher que cometeu o adultério, é morta, apedrejada. Uma das cenas forte do livro. Mas,Shekiba tem uma castigo de levar 100 chicotadas nas costas. Eu sei que não é agradável ler isso, porém está no livro. Algo muito estranho acontece com ela, após essa situação. Diria que o destino sorriu para Shekiba.



Mãe e filho 

A Rahima não tem um casamento feliz, além dela, seu marido tem outras esposas, e uma sogra insuportável faz a vida dela um inferno. A única felicidade que ela tem é o seu filho. Rahima tem um “trabalho” que é ler e escrever no ministério da justiça da cidade de Cabul, uma das cidades importante do país, junto com a primeira esposa do marido, ela não sabe escrever e nem ler. Mas, elas não são amigas, se aturam. Rahima conhece duas mulheres que a ajudam estudar mais, a usar o computador, em uma organização internacional que uma mulher americana instrui mulheres ao estudo, porém é pouquíssimo frequentado, algumas mulheres tem medo de estudar, outras não tem interesse. Acontece uma tragédia na vida de Rahima, o seu destino foi puxado como um tapete,e a poeira é como lembrança do que viveu antes de tudo acabar. Rahima descobre que seu marido não quer mais como esposa, e isso deixa nervosa. E muito mais vulnerável. As mulheres sofrem violência doméstica constante, e elas não podem fazer nada, Shekiba e Rahima são um grande exemplo disso. 

Não é uma história romantizada, é isso que eu mais gostei, é verdadeira, ao ponto de torcer para que essas mulheres sejam felizes, e que possam estudar, trabalhar, cuidar dos seus filhos, casar, viver dignamente bem. Eu pesquisei muito sobre o Afeganistão, e realmente é situação complicada para qualquer ser humano ali. É óbvio que tem coisas boas lá, as paisagens, a cultura e tudo. Mas, ainda o que impera é o fanatismo religioso, pelo que eu entendi, a partir das minhas pesquisas. O grupo Talibã, o ópio vendido como fosse algo normal, a droga que é utilizada sem restrição alguma, eles vendem para outros países, a miséria, a guerra...tudo. Eu aprendi muito com a cultura afegã,sério mesmo. Espero que vocês leiam esse livro, e não fiquem impactados com a história, é a maneira da autora escrever sobre o país onde nasceu e como é a cultura para que tenhamos uma opinião formada sem julgar a cultura do outro. Um final muito bom, com esperança para todos que estão estado de calamidade em várias regiões do Afeganistão. Hoje tem muitas pessoas ajudando o país, isso é muito importante. Coloquei a foto no início da resenha para lembrar de toda a tragédia da história a uma esperança. Não vou colocar o gif no final da resenha, como sempre faço, e sim um trecho do livro. Até a próxima! 
“ - Rahima-jan, lembre-se de que na vida há tufões. Eles vem e viram tudo de cabeça para baixo. Mas ainda assim você tem que se levantar, porque a próxima tempestade pode estar na outra esquina.”
 
A Pérola que Rompeu a Concha
Autora: Nadia Hashimi
Editora: Arqueiro
Lançamento: 2017
Modelo / páginas: Físico / 448
Sobre A Pérola que Rompeu a Concha:
Nadia Hashimi nasceu em Nova York, nos Estados Unidos. Seus pais deixaram o Afeganistão nos anos 1970, antes da invasão soviética, mas ela cresceu cercada por uma família numerosa, que manteve a cultura afegã como parte importante do cotidiano. Em 2002, visitou o Afeganistão pela primeira vez com os pais, e o passado e o interesse pela cultura e pela realidade das mulheres afegãs a motivaram a escrever histórias ligadas ao país. Nadia é pediatra e mora nos arredores de Washington com o marido, quatro crianças curiosas e roqueiras, dois peixinhos dourados e um papagaio-cinzento.
TAGS: ,
Andrea Machado
PUBLICADO POR

"Sou altruísta, um pouco louca ( do bem), tenho poucos amigos, adoro irritar as pessoas, meu humor é considerado “negro”. "

Copyright © Pausa Para um Capítulo. Designed by Everton As