Pausa Viu | O ódio que você semeia


Duas Starr. Uma disposta a passar despercebida e outra com vontade de gritar.
Sinopse: Starr Carter é uma adolescente negra que presencia o assassinato de Khalil, seu melhor amigo, por um policial branco. Ela é forçada a testemunhar no tribunal por ser a única pessoa presente na cena do crime. Mesmo sofrendo uma série de chantagens, ela está disposta a dizer a verdade pela honra de seu amigo, custe o que custar.


Bem... desconstruindo cada pedacinho dessa sinopse by Google: Starr Carter é uma adolescente negra que presencia o assassinato de Khalil, seu amigo de infância, por um policial branco. Ela é incentivada a testemunhar no tribunal por ser a única pessoa presente na cena do crime. Mesmo sofrendo uma série de chantagens, ela acaba disposta a dizer a verdade pela honra de seu amigo, custe o que custar.
Para quem não sabe, o filme é baseado no livro homônimo, bestseller, ganhador de prêmios e primeiro livro da Angie Thomas.

Lá fora, o livro tem um trocadilho com as primeiras letras das palavras, que formam THUG, uma palavra que designa bandido ou gangster em algumas regiões. Eu só me toquei disso bem depois do lançamento lá de fora e achei absolutamente genial no contexto no qual o livro foi baseado: a revolta de afro-americanos com o genocídio crescente da raça por parte de policiais dos EUA. Os "incidentes" (denominação policial) acabaram dando vida ao movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) em 2013.


Mas vamos a essa adaptação... É EXCELENTE. Como está no trailer, a Starr está dividida em duas: A menina criada no Heights, um bairro predominantemente guetto, com vizinhança comandada pelo tráfico, onde muitos nascem, crescem e morrem ali mesmo. E a Starr do colégio. Essa Starr é estrela do time de basquete, tira excelentes notas, comportada, aceita os colegas tentando se enturmar com ela com gírias que eles nem sabem de onde vieram, namora até um palmito... opa, um rapaz branco.


A Starr do Heights cresceu ouvindo sua mãe como se comportar para a sociedade (leia-se: brancos) e polícia. Não chamar atenção. Não reagir.


Em uma festa no fim de semana (quando ela evita o namorado e colegas do colégio), ela está na sua vizinhança em uma festa quando encontra Khalil, um amigo de infância, que acaba contando a ela que está, devido a fatores maiores, traficando drogas com o maior traficante do distrito (inclusive, ex-"patrão" do pai de Starr). Eles são parados por uma viatura, onde um policial aborda os dois jovens com um pouco de brutalidade além da necessária dureza. Em segundos tensos, vemos tudo se tornar o olho do furacão... Khalil é alvejado por balas do policial e Starr é a única a presenciar tudo.


É difícil, chocante e necessário de se ver, e se você esteve de olho no que rolou em 2013 no BLM e no que vê aqui no Brasil, sabe que é um retrato da realidade.
Starr é a única testemunha e polícia, seus pais e outros estão em cima da jovem. Ela não quer se expôr (influência maior da mãe), ela não se conforma com a injustiça do que andam falando da morte do amigo, ela só quer paz, mas paz não é apenas para quem quer.
Ela acaba conhecendo April, uma defensora de um movimento como o BLM, que quer justiça a Khalil e tantos outros nomes, e essa acaba sendo seu elo com uma revolução.
Starr e duas divisões são como um vulcão pronto para explodir e a morte de Khalil é o ápice. Ela precisa juntar todas suas características e ser uma só Starr, mas para isso, tem que deixar de engolir a frivolidade com que a tratam no colégio, tem que se impôr com respeito em suas vontades com os pais, tem que decidir o que fazer em relação ao namorado, tem que decidir o que fazer com a crescente ameaça do traficante do distrito à sua família...


Eu não vou mentir para vocês: estava muito apreensiva quando a Amanda ganhou o papel de Starr, devido ao que vi ela performar em "Tudo e todas as coisas", mas ela me impressionou muito aqui! O elenco todo está fantástico! Cada pedacinho de força, de sorriso, de família, de esperança, de revolução não passa despercebido e chorei que nem uma condenada vendo a (r)evolução da Starr.


Como o tempo de estréia já passou, eu fico no aguardo que alguns circuitos alternativos cheguem a exibir o filme e se esse for o caso, vá assistir. O ódio que ele semeia é doloroso, lindo e necessário. Porém, NÃO vá assistir se você acha que racismo é coisa de vitimista, mimimi (como eu ODEIO essa palavra) e se acha O HUMANISTA (não vejo cores, vejo pessoas e esse tipo de blá blá blá). Você já está morto por dentro e empatia é uma palavra que você adora usar em redes sociais, mas não sabe vivê-la.

ERGA-SE. FAÇA SUA VOZ SER OUVIDA.



O ódio que você semeia
Baseado no livro homônimo de Angie Thomas
Diretor: George Tillman, Jr.
Distribuidora: Fox
Lançamento: 2018
Elenco: Amandla Stenberg, Regina Hall, Russel Hornsby, Common, KJ Apa, Anthony Mackie, Issa Rae e Algee Smith
Renata Pamplona
PUBLICADO POR

"Lendo e resenhando muita coisa da cultura pop. Inevitavelmente Geek e apaixonada por mais personagens fictícios que pode contar."

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