25 março 2017

[Resenha]: Jantar Secreto – Raphael Montes


Título: Jantar Secreto

Autora (a): Raphael Montes
Capa comum: 376 páginas
Editora: Companhia das Letras 
Ano: 2016
Idioma: Português
Compre aqui: Amazon

Sinopse: "Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido. Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. No cardápio: carne humana. A partir daí, eles se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que jamais imaginaram existir em cada um deles."

Oi gente tudo bem?! Hoje vamos mais uma vez de Crossover entre os blogs parceiros, dessa vez quem aparece por aqui, é o Francisco do Sooda Blog . Ele vai falar sobre um dos fênomenos editoriais de 2016, o livro "Jantar secreto" do brasileiro Raphael Montes. O Francisco também é responsável pelas lindas fotos da resenha de hoje. Vem conferir.
A obra mostra muito mais do que as vísceras humanas, mas as entranhas da alma, aquela que ninguém quer mostrar.

A antropofagia, ou canibalismo humano não é um tema novo, pelo contrário, a questão sempre esteve presente em vários povos indígenas, porém o ato de comer partes ou um ser humano completo, naquela época, era normalmente associado a rituais culturais daquelas comunidades. Nos dias de hoje, além de ser ilegal, essa prática tem sido associada basicamente a uma patologia humana, como já fora alertado por Freud no século XIX.

A mente humana ás vezes é capaz de andar por caminhos tortuosos e inexplicáveis. E será que um ser humano seria capaz de preparar carne seres da sua espécie, em um momento de extrema necessidade? Será que um ser humano se alimentaria de seres de sua espécie, somente pela vontade de comer coisas exóticas? Até que ponto chegaria a insanidade humana, em fazer ou comer carnes que poderia ser a sua? Essa e outras questões são abordadas em novo romance de Raphael Montes, Jantar Secreto.

A história se passa no Rio de Janeiro, onde conhecemos quatro jovens de um interior do Paraná que se mudaram para a capital do entretenimento, para tentar uma nova vida. Depois de anos, a frustação veio. A maioria deles já havia se formado, e estavam praticamente zerados, sem dinheiro, e prestes a ser despejados. Então em uma brincadeira tola de Dante, o jovem narrador dessa história, surgiu a ideia de realizar jantares com carne humana.


Leitão e sua namorada, Hugo e Dante aceitaram levar o negócio a frente, e de certa forma Miguel foi forçado a participar da tramoia. E assim eles montaram em um site uma proposta que logo arranjou adeptos: A Carne de Gaivota estava no ar.

Porém faltava um detalhe, como arranjariam um corpo. Depois de várias circunstâncias, conversas no whatsapp hilariantes (sério gente eu me espoquei de rir), e detalhes relativamente suspeitos, Hugo então trouxe um corpo para ser tratado e posto a mesa.

Alguns detalhes na preparação desse prato não foram deixados de lado, assim como em vários momentos da história. Não que o autor escrevesse delineando cada passo na preparação da iguaria, mas algumas partes foram providencialmente colocadas a fim de mostrar o quanto cruel é se alimentar de carne de um animal, até porque em vários momentos o autor faz severas críticas ao trabalho em larga escala, tudo em prol do paladar humano.

E o pior ainda estava por vir, porque o que seria somente um jantar, virou um meganegócio, com três a quatro jantares semanais e de vários tipos: negros, brancos, gordos, feios, bonitos, enfim, na mesa, não existe distinção de gêneros, classe, ou orientação sexual. A única coisa que se prezava era se a pessoa não tinha alguma doença contagiosa, ou se a carne estava fresca.

Aos poucos vamos sendo inseridos, não somente numa trama de canibalismo, de porque as pessoas fazem esse tipo de jantar, ou porque as pessoas comem, estamos inseridos em uma trama policial, porque afinal de contas, pessoas estão sumindo, o negócio está crescendo, e assim a história começa a ficar cerceada de questões, tais como, que pessoas estão sumindo? Porque? Quem está chefiando os negócios? Aonde isso tudo vai parar?

Sem dúvidas, o que mais me ganhou nessa história foram as críticas ao modus operandi do ser humano, a fluidez como foi aceito o negócio, as motivações que levam as pessoas a praticarem o canibalismo. O autor poderia muito bem trocar o absurdo da prática da antropofagia, por outro qualquer, pois, o que é mais relevante é como as pessoas se portam em situações extremamente delicadas como essa. A falta de valores, ou caráter que se perdeu ao longo do tempo, E esse questionamento, talvez fique martelando por muito tempo em minha mente.


A história vem acompanhada de furos? Sim, em alguns momentos os tecidos parecem que foram costurados de maneira um pouco mais frágil, e algumas questões foram interligadas de maneira um pouco mais forçada, para não perder a linha da história, mas isso não lhe tira o apetite de ter devorado uma boa história, funciona como uma espécie de pedra que foi colocada e mastigada sem querer.

No final da história você se ver embebido por tanto sangue, em uma cena extremamente visceral, que poderá deixar o cheiro entranhado em sua alma por muito tempo, com um detalhe: Tome cuidado, as aparências enganam, e mesmo com as pistas deixadas ao longo do enredo, talvez você descubra a verdade só ao final, mas não se preocupe, a carne de gaivota já está a sua mesa, e convido-o a experimentar, sem compromisso. E se gostar, poderemos fazer muito mais.