23 março 2017

Quinta do terror: FRANKENSTEIN ou o Moderno Prometeu - Mary Shelley

"Na verdade haveria sempre motivos para temores, enquanto algum ser que eu amasse estivesse vivo. Minha obsessão por esse demônio é difícil de ser descrita" (Dr. Victor Frankenstein).



Título: FRANKENSTEIN ou OModerno Prometeu 

Autor: Mary Shelley
Capa dura: 240 páginas
Editora:L&PM
Ano: 2015
Idioma: Português
Compre aqui: Amazon 

Sinopse: Mary Shelley (1797-1851), mulher do poeta inglês Percy B. Shelley, escreveu Frankenstein para participar de um concurso de histórias de terror realizado na intimidade do castelo de Lord Byron. Mesmo competindo com grandes gênios da literatura universal, acabou redigindo esta que é uma das mais impressionantes histórias de horror de todos os tempos. A história do Dr. Victor Frankenstein e da monstruosa criatura por ele concebida vem fascinando gerações desde que foi publicada há mais de cem anos. Brilhante história de horror, escrita com fervor quase alucinatório, Frankenstein representa um dos mais estranhos florescimentos da imaginação romântica. 

Apesar de ser uma leitura tranquila e não tão assustadora quanto os livros que costumo ler, Frankenstein se mostra como uma obra difícil de comentar, pois carrega em si história e estória, e fazer uma resenha comentada sem considerar estes aspectos tornou-se uma tarefa um pouco mais tensa de se realizar! 


Antes de começar a falar do livro, gostaria de contextualizar esta resenha pela autora e sua época, e também pela nossa época. Nunca foi tão falado na mídia a questão do empoderamento feminino, e Mary Shelley é, sem dúvida, uma precursora do feminismo (ainda que não soubesse) pelo seu papel como escritora notória no século XIX, tendo escrito este conto gótico e romântico aos 19 anos de idade!

Como a própria autora relata no prefácio da terceira edição, em 1831, (quando o livro começou a ganhar fama), a história surgiu de um passatempo durante as férias com amigos (ilustres amigos, diga-se de passagem) Lord Byron, seu marido Percy Shelley e John Polidori. Desta brincadeira, surgiramFrankenstein, de Mary Shelley, e um conto sobre vampiros, de Polidori (o qual inspirou BramStoker a escrever Drácula posteriormente). Frankenstein tornou-seum dos maiores clássicos de terror da literatura em todos os tempos, também imortalizados no cinema através de várias adaptações.
Frontispício de uma edição inglesa de Frankenstein,deMary Shelley,em 1831.
Gravura de 
Theodor vonHolst .
Partindo para a história em si, o livro é claramente um romance de terror gótico com inspirações do movimento romântico. Seu sucesso se deve justamente à narrativa brilhante de Shelley, pela sua primazia em conseguir criar um relato que aborda questões filosóficas e morais de difícil discussão, ainda mais para a época, como a natureza do princípio da vida, e a bondade e a maldade existente na humanidade. Tais concepções num romance que mistura tensão entre o criador e sua criatura, envolvendo a morte de inocentes, a rejeição e o debate das paixões humanas, fez a narrativa de Shelley ser reconhecida como a primeira obra de ficção científica da história.

O romance se inicia através de cartas escritas pelo capitão Robert Walton para sua irmã enquanto ele busca achar uma passagem para o Pólo Norte, e acaba encontrando o Dr. Victor Frankenstein doente e perdido. Após se restabelecer por alguns dias, o cientista resolve narrar sua história para o capitão, que as descreve nas cartas. Esta forma de escrita é também conhecida como narrativa moldura ou narrativa quadro, em que uma história contém outra. 

A partir daí, o livro relata a história de Victor Frankenstein, um estudante de ciências naturais que constrói um monstro em seu laboratório. O sonho doentio do criador, no entanto, não lhe traz contentamento. Ao contrário, enojado pela sua criação,o cientista foge de seu laboratório, abandonando à própria sorte seu demônio meio humano.
"Foi numa noite lúgubre de novembro que contemplei a realização de minha obra. Com uma ansiedade que quase chegava à agonia recolhi os instrumentos a meu redor e preparei-me para o ponto culminante de do meu experimento, que seria infundir uma centelha de vida àquela coisa inanimada que jazia diante dos meus olhos. A chuva tamborilava nas vidraças. Então, deu-se o prodígio" (cap. V).

O cientista, de saúde fraca e atitudes um tanto covardes (na minha opinião!), adoece e acaba precisando se reestabelecer com a ajuda de seu melhor amigo, HenryClerval. Dois anos após a criação no laboratório, Victor Frankenstein recebe uma carta de seu pai relatando o assassinato de William, seu irmão mais novo, e pedindo a sua volta. 

Fonte: O crítico Geek 
Ao chegar aGenebra, Victor tem um vislumbre de sua criatura nas montanhas, e, ao ser informado que Justine, a criada da casa, é acusada pelo assassinato de seu irmão, começa a acreditar que quem cometeu o crime foi o monstro. Apesar disso, por medo ou covardia, ele nada faz em defesa de Justine, que acaba por ser condenada à morte. Frankenstein passa então a se sentir culpado por ter criado o monstro, e o segredo e a culpa passaram a lhe torturar. 

Lutando contra o desespero,Frankenstein resolve escalar o Monte Branco, onde acaba encontrando sua criatura, que é inteligente e possui sentimentos humanos. O monstro conta sua história, narrando desde a fuga do laboratório e o seu encontrocom seres humanos, quase sempre sendo agredido. O monstro desenvolve suas habilidades quando consegue abrigo numa espécie de celeiro abandonado anexo a uma cabana. Lá, observando através de frestas, fica conhecendo a vida de uma família, afeiçoando-se a eles e ajudando-os em segredo. A solidão e a feição que cria pela família, faz com que a criatura resolva tomar coragem e se aproximar destes humanos, na esperança de ser aceito como amigo. Mas a aproximação não dá certo, e a amargura toma conta do monstro, que foge pra Genebra e acaba realmente sendo o assassino do irmão de Victor Frankenstein, por ódio e vingança ao seu criador. 

O encontro entre criatura e criador é possibilitada porque o monstro, quando fugiu do laboratório, levou as anotações de Victor em seu diário, e, a par de como foi criado, pede a Frankenstein que construa uma fêmea para ele, prometendo por sua vez deixar a humanidade em paz. Caso o cientista se recusasse, o monstro promete fazê-lo passar por tormentos inimagináveis. Apesar de contrariado, Frankenstein concorda, e, ao voltar para Genebra torna-se noivo de Elizabeth, sua irmã de criação e a quem estava prometido. Fica combinado então que ele iria passar uma temporada na Inglaterra com seu amigo Clerval, a pretexto de concluir uns estudos, mas sua real finalidade era cumprir a sua promessa com a coisa, para então retornar a Genebra e se casar.

Frankensteincomeça a construir a criatura fêmea, mas acaba mudando de ideia, temendo criar uma raça de monstros. Após fazer várias considerações, Frankenstein decide sofrer as consequências por seus atos, destruindo a segunda coisa, ainda incompleta. O monstro, que ao ver o ato de seu criador, jura se vingar, e foge, assassinando o amigo do cientista, Clerval.

Devastado pela culpa e pela tristeza, Victorchega aser acusado de assassinar o amigo, mas acaba por ser inocentado e casa-se com Elizabeth. Na noite de núpcias, fica apreensivo, temendo um ataque da criatura contra ele, mas o monstro ataca a noiva e a estrangula. A notícia da morte de Elizabeth deixa o pai de Frankensteininconsolável, e ele também acaba vindo a falecer. Jurando vingança,Victor passa a perseguir a criatura, que o leva através de uma longa caçada em direção ao norte, onde são avistados pelo capitão Walton e sua tripulação.

O navio do capitão Walton fica preso no gelo, e Victor, já bastante doente, acaba morrendo. O capitão Walton então surpreende a criatura na cabine, no leito de morte de Frankenstein. Ela diz para Walton que não havia mais o que temer de suas monstruosidades, pois seus crimes terminaram com a morte de Frankenstein.

O texto, além do horror apresentado na narrativa, traz o debate de questões filosóficas, éticas e morais, sendo o debate mais tensona relação conflituosa entre a criatura e o criador. A ruína e o sofrimento aparecem também, principalmente na destruição física e moral de Victor Frankenstein com a perda de sua família. Preconceito, ingratidão e injustiça são relatados no sofrimento pelo qual passa a criatura, que é sempre julgada por sua aparência, e agredida mesmo antes de ter uma chance de se defender. Além disso, a narrativa é recheada de elementos da escrita romântica, com o vislumbre dos personagens, principalmente da coisa, pela beleza da natureza e suas paisagens. Por tudo isto, Frankenstein é uma obra clássica, pela época e pela genialidade da autora, sendo a reflexão da temática do princípio da vida um tema ainda atual e instigante. Nas palavras de Shelley,


"...o fato sobre o qual se fundamenta esta ficção não é impossível de acontecer. Não se deve pensar que eu alimente a menor crença em tal imaginação; no entanto, admitindo-a como a base da obra de fantasia, eu não me considerei como apenas tecendo uma série de terrores sobrenaturais. O fato do qual depende o interesse da historia está isento das desvantagens de um simples conto de espectros ou encantamento." (prefácio de Frankenstein ,1817)